Margarete da Silva
a vida não está a salvo
entra pelo vidro a luz,
raios me partam ao meio
porque escondo na noite ainda as palavras tristes
que compõem a minha poesia.
breve melancolia,
tolhe, encolhe e esbarra o cais da verdade
escrita na pressa.
a vida não sabe na boca
nem nos olhos mal risonhos
que escrevi com as minhas pegadas.
no final das contas não sobra dinheiro para nadas,
tenho tudos entalados no pranto
e o meu encanto não chega para os desempacotar.
balanço a esperança no quoficiente da inteligência,
a hipotenusa ao avesso.
estremeço e clamo,
o choro é estranho e os dias contam-se pelos dedos da mão esquerda.
migalho-me o amor entupido numa lata de atum por abrir,
restos de comida para o dia seguinte,
iogurte com validade estagnada,
cheiro a comida estragada.
a vida não está a salvo.
Afoguei-me nas palavras como um peixe fora de água
Chorei!
Cravei os meus olhos com o suor frio das saudades que carrego no peito,
dentro do peito, por entre as vísceras, nadam os peixes de um oceano sem dono!
Morri!
Com a cal dos dias repletos de memórias adormeci-me,
adormeci-me nas tuas palmas,
cega de um amor inteiro que se mexia como um lençol estendido ao vento.
Se a vida me chorasse ao menos como se chora a morte de alguém que amamos,
se a vida me risse com a boca que usa para me insultar.
Se o céu não fosse o limite e a bagagem coubesse nos meus bolsos.
Não condeno as ruas estreitas, não balanço a incerteza e por dentro da pele,
nas veias, corre o sangue num contratempo desapontado.
Rascunhos perfeitos de palavras que não sei se um dia conseguirei soletrar ao teu ouvido.
Afoguei-me nas palavras como um peixe fora de água.
Canto a breve exactidão dos passos ao teu encontro,
assobio a ausência soltando-a aos poucos,
desamarro as faltas e as inquietações.
E hoje saí de mim para me ser em Ti, de tal forma que julgo que o meu corpo deambula como um cego à toa,
pelas ruas amontoam-se as palavras que se soltam da minha voz e te levam os meus sussurros.
Rasguei os meus medos ao meio e partilhei-os contigo.
Beija-me a verdade calada,
muda!
Silencia-me com o sabor equacional dos teus lábios.
Despi o eco com o suor das mãos envergonhadas,
atadas atrás das costas,
presas como o céu dentro dos teus olhos,
escondi-me mais um pouco e em jeito de menina
ofereço-te os meus sonhos numa bandeja de sorrisos soltos à socapa.
A tristeza é o meu dom, a desilusão a minha casa...
Já incentivei o vazio a crescer, já semeei sorrisos e cultivei mágoas...
O mundo é a raiva dos loucos, o sufoco dos sãos...
Não embelezo a minha vida com flores que são a minha mentira
não pinto a vida de cores claras, quando a humidade vem tudo volta a ser escuridão.
Se existo para ver passar a vida prefiro nem existir.
E vocês?
Fazem de conta que conseguem!
Fazem de conta que transformam o mundo com as palmas das mãos.
Vivem fechados na música repetita pelo giradiscos estragado.
Apodrecem-me as mãos com as flores que não me oferecem.
Empobrecem-me os braços com os abraços que não recebo.
A tristeza é o meu dom, a desilusão a minha casa...
Sonho!
::INTRO::
Fazem de conta que conseguem!
Fazem de conta que transformam o mundo com as palmas das mãos.
Vivem fechados na música repetita pelo giradiscos estragado.
Apodrecem-me as mãos com as flores que não me oferecem.
Empobrecem-me os braços com os abraços que não recebo.
A tristeza é o meu dom, a desilusão a minha casa...
Sonho!
::INTRO::


